Dicas de português
null Metáfora

Na dica de português de julho, falamos da qualidade da leitura e de como ela é importante para aperfeiçoarmos nossa habilidade na escrita. Uma das consequências do desenvolvimento como leitor é a percepção de figuras de linguagem, dentre elas, a metáfora.

Como é sabido, a metáfora é uma figura de linguagem na qual o interlocutor transfere o nome de uma coisa para outra, possibilitando que se faça uma relação de comparação.

Dessa forma, a relação de semelhança entre dois termos ocasiona uma transferência de significados, estabelecida por meio de uma comparação implícita.

A metáfora é um recurso frequentemente utilizado pelos escritores. Isso porque, quando bem aplicada, a metáfora enriquece o texto. Contudo, seu emprego em demasia ou equivocado pode produzir o efeito contrário.

Se há regras para a elaboração de um texto, também há um método para aprimorá-lo. Assim como devemos evitar a voz passiva, ter cautela com a repetição de palavras, buscar a objetividade e fazer o bom uso da gramática, com o emprego da metáfora não é diferente.

E isso se deve ao fato de que a metáfora pode ser mal interpretada ou configurar um verdadeiro clichê. Muitas expressões, já banalizadas, reduzem a credibilidade do que está escrito. Se um dia ela já foi inédita, pode ser que com o tempo e o excesso de sua utilização, sua função se esvazie. Assim, frases como um argumento cortante, ficar entre a cruz e a espada e a ponta do iceberg podem até funcionar oralmente, mas na comunicação escrita nem tanto.

A metáfora, por vezes, está presente sem que sequer percebamos. Algumas ideias são intrinsecamente construídas baseadas nessa figura de linguagem.

O conceito de tempo e a metáfora TEMPO É DINHEIRO é um bom exemplo.

Quando dizemos que algum erro custou caro porque nos fez perder tempo; quando aconselhamos alguém a não desperdiçar tempo com algo ou alguém; nesses casos, implicitamente, fazemos uso da metáfora.

O mesmo vale para o conceito de que uma discussão é uma batalha. Afirmar que referido argumento é indefensável, que o argumento foi destruído, que a crítica ou comentário acertou o alvo, que a estratégia foi esmagadora, enfim, são expressões que partem de uma premissa metafórica. Algumas, no entanto, podem cair no lugar-comum, verdadeiros chavões, exigindo cautela para não serem mal interpretadas.

Eis, portanto, a necessidade de aprendermos a enxergar a metáfora no que lemos e no modo como nos comunicamos para, então, conseguirmos escrevê-las, cientes de seu significado e de seu papel no texto.

Para Machado de Assis, Capitu tinha olhos de ressaca. No caso, o autor compara os olhos da personagem com a ressaca do mar. E o narrador de Dom Casmurro explica: [Os olhos] traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.

Que metáfora!

Elaboração: Patrícia Corazza
Fonte:
BECKER, HOWARD S. Truques da Escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos; 1ª edição; Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2015.
http://www.leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Anais/ECLAE_II/o%20uso%20da%20metáfora/direita.htm