Dicas de português
Voltar Primeiramente: certo ou errado?

Na dica de português de novembro de 2020, tratou-se a respeito dos conectivos e da sua importância como recursos linguísticos para dar coesão ao texto.

Dentre os vários tipos de conectivos, foram citados exemplos dos que são comumente utilizados, inclusive aqueles que servem para introduzir a exposição da ideia.

Nesse aspecto, há uma dúvida recorrente entre os profissionais que trabalham com a produção de textos: está errado utilizar o conectivo primeiramente?

Há uma certa divergência acerca do advérbio, com opiniões que vão desde o está correto, deve ser evitado, pois não é elegante, está errado.

Para os que dizem que está errado, a explicação é simples: primeiramente advém de primeiro, um numeral. Como numeral não pode formar advérbio, não estaria correto fazer uso de primeiramente, até porque ninguém escreve segundamente, terceiramente, e assim por diante.

O argumento poderia convencer, porém ele restringe a classificação morfológica do termo. Com efeito, a palavra primeiro é um numeral, isso não se discute; contudo, ela pode também fazer a função de adjetivo. Desse modo, como adjetivo é possível a sua variação como advérbio.

Verifica-se, portanto, que o equívoco se encontra na interpretação que se faz da palavra que deu origem ao conectivo. Daí que não se pode coadunar com a exclusão do advérbio, sob o argumento de que sua utilização é um equívoco.

A segunda via, de que primeiramente é deselegante como conectivo em um texto técnico, baseia-se num critério mais subjetivo, de modo que, caso seja assim considerado por quem escreve, basta substitui-lo por conectivos que sirvam para idêntico propósito, ou seja, introduzir o tema.

Por fim, existem aqueles que aceitam o advérbio em questão, seja em razão de sua derivação do adjetivo, como também pelo fato de que ele não só está dicionarizado como há registros de seu emprego já no século XIII e em várias obras de escritores clássicos da literatura brasileira e portuguesa como Gil Vicente, Eça de Queirós, Rui Barbosa, Machado de Assim, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Saramago, etc.

Aliás, para dirimir qualquer dúvida remanescente, cita-se um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha: Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente, dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele.

Elaboração
Patrícia Corazza
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