Sextas do Saber debate impactos, responsabilidades e desafios do uso da Inteligência Artificial no Judiciário - Academia Judicial - Poder Judiciário de Santa Catarina

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Sextas do Saber debate impactos, responsabilidades e desafios do uso da Inteligência Artificial no Judiciário

14 agosto 2026 | 19h07min

A edição de agosto do programa Sextas do Saber, realizada nesta sexta-feira (14/8), reuniu, no Tribunal de Justiça de Santa Catarina, três pesquisadores e profissionais com atuação destacada na intersecção entre Direito, tecnologia e Inteligência Artificial para discutir o uso da IA como ferramenta de apoio à decisão judicial. O encontro contou com a participação do professor pós-doutor José Luiz Bolzan de Moraes, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali); do desembargador do Tribunal de Justiça de Pernambuco e PhD Alexandre Freire Pimentel; e do professor, engenheiro e PhD em Inteligência Artificial Fernando de Lima Neto, da Universidade de Pernambuco. Os convidados foram recebidos e apresentados pela diretora-executiva da Academia Judicial, desembargadora Vera Lúcia Ferreira Copetti, que representava o presidente do TJSC desembargador Rubens Schulz.

A primeira palestra da tarde foi proferida pelo professor José Luiz Bolzan de Moraes que abordou o tema "Decidir com Inteligência Artificial: o juiz capturado pela IA e o devido processo mental", na qual levantou questões sobre as motivações e impactos da utilização das novas tecnologias.

Sua exposição foi articulada ao contexto neoliberal de eficiência, produtividade e a crescente demanda ao Judiciário. Ele abordou o que considera um ponto cego na Resolução n. 615/2025, do Conselho Nacional de Justiça, que estabelece diretrizes para o uso da inteligência artificial no Poder Judiciário. De acordo com o professor, a resolução não problematiza a retirada do juiz e da metódica do processo decisório, que visualiza como consequência da utilização da inteligência artificial no judiciário.

Fotografia de José Luiz Bolzan de Moraes durante palestra no programa Sextas do Saber. Ele está em pé ao lado de um púlpito, vestindo terno escuro, camisa branca e gravata, enquanto gesticula com uma das mãos durante a fala. À frente, o público acompanha a apresentação, sentado em fileiras. Ao fundo, um telão exibe um dos slides da palestra, com conteúdo relacionado ao tema da Inteligência Artificial e da decisão judicial. 

"Há uma lógica de custo-benefício de matriz mercadológica, em que o tempo gasto em reflexão crítica se converte em ineficiência, e a velocidade na emissão de comandos judiciais é equiparada a êxito institucional, voltada à aceleração do fluxo processual, da eficácia qualitativa, que remete à realização substantiva dos direitos fundamentais e ao cumprimento dos fins do processo.", expôs. A hipótese que ele levanta é que o relacionamento com a inteligência artificial muda a forma como o juiz atua, substituindo o seu processo de deliberação crítica. "Mas isso não significa que não divemos utilizá-la, mas temos que decidir sabendo disto", pontua Moraes, que defende que a decisão deve continuar sendo o resultado de um processo deliberativo. E finalizou: "Regular a ia no judiciário não pode ser apenas uma política de controle de ferramenta, mas uma política de proteção da deliberação". 

Na sequência, o professor Fernando Buarque de Lima Neto, ministrou a palestra "De Princípios à Prática: desafios na construção de sistemas de inteligências artificiais responsáveis", e que trouxe uma postura de defesa na utilização da IA, com a característica indispensável da responsabilidade.

"A IA Responsável é uma escolha metodológica onde técnicas adaptativas são combinadas para produzir resultados de alto impacto, e que incluam transparência, rastreabilidade, explicabilidade e capacidade obrigatória de corrigir seus próprios erros. Se um sistema público não tiver isso, é uma temeridade aplicarmos um sistema de IA que não tenha os requisitos de explicabilidade e responsabilidade", explicou.

Fotografia de uma palestra em auditório. À frente da sala, Fernando de Lima Neto está em pé, ao lado de um púlpito, segurando um microfone e apresentando um conteúdo projetado em uma tela. O público, composto por dezenas de participantes sentados em cadeiras, acompanha a exposição voltado para a apresentação. O ambiente é uma sala de eventos corporativa, com iluminação clara e projetor exibindo slides ao fundo. 

Para ele é necessário que seja desenvolvida uma IA capaz de autorreconhecimento, com autoconsciência. Em sua concepção um inteligência artificial sem um processamento subjetivo torna-se muito mais perigosa. "Com a incorporação da subjetividade, as IAs terão decisões responsáveis. Precisamos incorporar humanidades a elas, outras ciências que não seja apenas a computação, precisamos do direito, por causa do compliance; da ética, por causa da corretude; e da política, por causa da justiça, a justiça emerge do processo político", justificou. Para ele um sistema responsável precisa de três ingredientes: racionalidade, subjetividade e humanidade.

Alexandre Freire Pimentel está em pé junto a um púlpito, durante uma apresentação em ambiente interno. Veste terno escuro, camisa branca e gravata com detalhes claros. À sua frente há um microfone de mesa, e ao fundo aparecem uma parede clara e uma porta de madeira. A fotografia registra o momento da palestra em plano próximo. 

A última palestra, ministrada pelo desembargador Alexandre Freire Pimentel, trouxe as vantagens e riscos do uso da inteligência generativa como ferramenta de gestão e de auxílio decisório. De acordo com o desembargador, que participou da comissão do CNJ que elaborou a Resolução n. 615/2025, existe um pensamento de "neocolonização" por trás da inteligência artificial, mas que ele não pode ser impeditivo para o seu uso. Ao final de sua exposição, o desembargador apresentou a IA Maia, uma parceria entre a Universidade Federal e o Tribunal de Justiça de Pernambuco, que o auxiliou a zerar os processos do gabinete no decorrer de um ano.

Imagens: Maurício Vieira

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