Entre metas e pessoas: gestão consciente na sociedade do desempenho - Servidor - Poder Judiciário de Santa Catarina

Dicas de gestão

Entre metas e pessoas: gestão consciente na sociedade do desempenho

No contexto contemporâneo, marcado por crescentes cobranças por produtividade e eficiência, o ambiente de trabalho — inclusive no serviço público — reflete os efeitos da chamada “sociedade do desempenho”. Esse conceito, desenvolvido por Byung‑Chul Han, descreve uma fase da sociedade caracterizada pelo excesso de exigência, autoexploração e esgotamento psicológico. 

Segundo o autor, a pressão deixa de ser predominantemente externa e passa a ser internalizada: os indivíduos são impulsionados pela ideia de que “tudo é possível” e, assim, buscam constantemente superar a si mesmos, produzir mais e manter elevados níveis de eficiência. 

Nesse cenário, o papel do gestor torna-se estratégico. Mais do que assegurar resultados institucionais, cabe-lhe promover condições que preservem a própria saúde mental e a de sua equipe, prevenindo o esgotamento e favorecendo um ambiente de trabalho sustentável. 

É importante reconhecer, contudo, que o próprio gestor também está submetido às pressões estruturais da sociedade do desempenho. Sobre ele recaem múltiplas responsabilidades: entrega de resultados, gestão de pessoas e mediação de demandas frequentemente conflitantes. A expectativa de disponibilidade contínua, resiliência permanente e equilíbrio constante, sem atenção às suas próprias condições de trabalho, tende a reproduzir o mesmo ciclo de esgotamento que se busca evitar. 

Assim, cuidar da saúde mental do gestor não é aspecto secundário, mas condição essencial para uma liderança sustentável. Isso envolve estabelecer limites, compartilhar responsabilidades, buscar apoio institucional e reconhecer, de forma legítima, as próprias limitações. Sem esse cuidado, a liderança pode se tornar mais um vetor de sobrecarga, comprometendo tanto o gestor quanto o ambiente organizacional. 

A sociedade contemporânea substituiu a lógica da disciplina — baseada em ordens e proibições — pela lógica do desempenho, na qual o indivíduo passa a atuar como “empreendedor de si mesmo”. Essa transformação produz impactos diretos no ambiente de trabalho: 

  • Intensificação da autogestão, muitas vezes além de limites saudáveis; 
  • Tendência à autoexploração, em que a busca por produtividade se confunde com uma obrigação permanente; 
  • Sobrecarga decorrente do acúmulo de tarefas, estímulos e cobranças, gerando esgotamento mental, ansiedade e comprometimento da qualidade do trabalho. 

De acordo com Han, o sujeito do desempenho torna-se simultaneamente explorador e explorado, uma vez que internaliza as exigências de produtividade, o que contribui para o aumento de quadros como burnout e depressão, característicos de uma sociedade marcada pelo chamado “excesso de positividade”. 

Nesse contexto, o gestor pode tanto reforçar essa lógica de esgotamento quanto atuar como agente de transformação. Uma gestão mais consciente e equilibrada pode ser promovida por meio de práticas como:  

  1. Estabelecer limites saudáveis de desempenho: definir prioridades claras e metas realistas, evitando a cultura do “sempre mais”; 
  2. Valorizar pausas: compreender o descanso como condição para a continuidade de um desempenho qualificado;  
  3. Promover um ambiente de confiança: incentivar o diálogo aberto e reduzir a autocrítica excessiva, acolhendo dificuldades sem estigmatização; 
  4. Estimular a atenção focada: priorizar tarefas e evitar a fragmentação causada por múltiplas demandas simultâneas; 
  5. Exercer uma liderança humanizada: reconhecer que resultados institucionais sustentáveis dependem do bem-estar das pessoas; 
  6. Respeitar o horário de expediente: evitar a naturalização da sobrecarga e da extrapolação constante da jornada de trabalho. 

Em uma sociedade que valoriza o desempenho contínuo, o risco está em transformar o trabalho em fonte permanente de esgotamento, comprometendo não apenas os indivíduos, mas também a qualidade do serviço público prestado. 

Dessa forma, os gestores e a Administração do Poder Judiciário de Santa Catarina, em consonância com as diretrizes já difundidas em suas iniciativas institucionais, são chamados a promover o equilíbrio entre resultados e sustentabilidade humana. Isso implica respeitar limites, valorizar o descanso e incentivar uma produtividade saudável. 

Afinal, alcançar metas institucionais pressupõe preservar as pessoas — pois são elas que sustentam, em última instância, a própria justiça. 

“A sociedade do cansaço não se explica apenas pela imposição externa de desempenho, mas pela autoexploração que transforma o sujeito em algoz de si mesmo.” 
(Byung‑Chul Han)  

Elaboração: 

Alma Serena Barbosa Satto
Bruna Fernandes Alves Cascais
Ingrid Audrey Schauffert 
Marcelo Dias e Silva   

Referências: 
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.