Em memória das vítimas, seminário reforça compromisso institucional no enfrentamento da violência contra as mulheres - Academia Judicial - Poder Judiciário de Santa Catarina

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Em memória das vítimas, seminário reforça compromisso institucional no enfrentamento da violência contra as mulheres

11 junho 2026 | 18h57min

Quem chegava na manhã desta quinta-feira (11/6) no auditório Ministro Teori Zavascki, no Tribunal de Justiça de Santa Catarina, para participar do III Seminário do Programa Indira – 20 anos da Lei Maria da Penha: refletindo sobre relações de afeto, violências, silêncio e feminicídio, deparava-se com três cadeiras reservadas. No entanto, durante todo o evento elas se mantiveram vazias. Nelas estavam os nomes das três servidoras do Poder Judiciário de Santa Catarina vítimas de feminicídio: Marivane de Aguiar Brancher; Cleci Kehl Zeppe e Indira Mihara Felski Krieger.

O evento, uma parceria entre a Academia Judicial, a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) e o Núcleo de Segurança Institucional (NIS) do PJSC foi marcado por estas ausências, ausências que à sua maneira se faziam presentes. Como bem registrou a desembargadora Vera Lúcia Ferreira Copetti, diretora-executiva da Academia Judicial, na solenidade de abertura: “É importante que se nomeie para que as histórias se tornem concretas e para que as realidades não sejam reduzidas a abstrações”. 

O Programa Indira tem por objetivo implementar a política institucional de prevenção e as medidas de segurança voltadas ao enfrentamento da violência doméstica e familiar contra magistradas, servidoras e colaboradoras do PJSC. Em suas falas as autoridades destacaram o pioneirismo e relevância do Programa Indira, criado em 2022, e o seu status de referência nacional. Além da desembargadora, que na ocasião representava o presidente do Tribunal de Justiça, Rubens Schulz, também fizeram uso da palavra a presidente do Sinjusc, Caroline Rodrigues Costa; a juíza de direito Fernanda Pereira Nunes, que representava a Associação dos Magistrados Catarinenses, e o delegado Mauro Cândido Rodrigues, do NIS. 

“O mais importante desse período de criação do programa foi ter visto o aumento da confiança das magistradas e servidoras no nosso trabalho. Com isso a prevenção deixa de ser o papel de poucos e passa a ser um compromisso institucional compartilhado. Porque a violência doméstica não escolhe profissão, cargo, renda ou escolaridade, e ela também atinge as mulheres que trabalham dentro do próprio sistema de justiça”, destacou Mauro Cândido.

 Fotografia colorida registrada no plenário do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Em primeiro plano, uma longa mesa coberta por toalha branca está posicionada diante de um grande arranjo floral com flores em tons de laranja, rosa, amarelo e roxo. Sentadas atrás da mesa, da esquerda para a direita, estão a juíza de direito Fernanda Pereira Nunes, de cabelos escuros e roupa preta; Naiara Brancher, de óculos e blazer bege; a juíza de direito Andréa Rezende Russo, de cabelos claros e blazer bege; a desembargadora Tânia Regina Silva Reckziegel, de cabelos escuros e traje preto; a desembargadora Vera Lúcia Copetti, que fala ao microfone, usando roupa clara; Dinart Francisco Machado, de terno escuro e gravata; Quézia de Araújo Duarte Nieves Gonzales, de cabelos claros e blazer bege; Eliana Volcato Nunes, de cabelos grisalhos e traje escuro; Mauro Candido, de terno escuro; e Carolina Rodrigues Costa, de blazer branco. Ao fundo, vê-se a bancada do plenário, as bandeiras do Brasil, de Santa Catarina e do Poder Judiciário, além da inscrição “Tribunal de Justiça de Santa Catarina” na parede. Monitores suspensos exibem imagens do evento. 

A mesa de abertura também contou com a presença do corregedor-geral da Justiça, Dinart Francisco Machado; da juíza de direito Naiara Brancher; da desembargadora Tânia Regina Silva Reckziegel, do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, e Quézia de Araújo Duarte Nieves Gonzales; da juíza de direito Andréa Rezende Russo, do TRT- 12ª Região; e da procuradora de justiça Eliana Volcato Nunes, representante da procuradora-geral de Justiça, Vanessa Wendhausen Cavallazzi.

A primeira palestra da manhã foi conduzida pela coordenadora adjunta da Cevid, a juíza Naiara Brancher, titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar da comarca da Capital. Em sua apresentação, ela traçou um panorama das ações desenvolvidas pelo programa ao longo dos anos e sua atuação em paralelo à Lei Maria da Penha.

“Nesses 20 anos nós entendemos que, como instituição, temos que observar a centralidade da vítima, passar a ver a violência doméstica como violação dos direitos humanos, a necessidade de ampliação das medidas protetivas de urgência, a atuação em rede e o compromisso institucional com as mulheres. Nós não precisamos de novas lei, precisamos ampliar a nossa capacidade de prever, identificar e interromper situações de risco”, destacou a juíza.

Ela também ressaltou que o grande desafio não é ter um programa de proteção, mas sim construir uma cultura institucional em que cada pessoa saiba reconhecer os sinais da violência, compreendendo seu papel no enfrentamento. “Precisamos deixar de ver a violência como uma questão privada. Vê-la como uma questão institucional nos faz avançar muito mais”, destacou. 

A coordenadora também falou sobre uma pesquisa que está sendo realizada em parceria entre o Poder Judiciário catarinense, a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade de Emory, em Atlanta, nos Estados Unidos. O estudo busca criar um instrumento de avaliação de risco de feminicídio voltado à prevenção da letalidade, com foco no autor da violência. “A vivência do Programa Indira revelou a necessidade de avançar na produção de conhecimento baseado em evidências, para a realização de intervenções cada vez mais qualificadas de prevenção e para que se possa evitar a escalada da violência contra as mulheres”, finalizou. 

Após a apresentação do Programa, o professor Renato Nogueira ministrou a palestra Relações de Afeto, Silêncios e Violências contra as Mulheres, na qual abordou a violência de gênero sob a perspectiva dos afetos e das construções culturais. A mesa foi conduzida por Ceres Felski, irmã de Indira Felski, cuja trajetória inspirou a criação do programa que leva seu nome. Sua participação conferiu um significado especial ao momento, reforçando a dimensão humana e a importância da memória na luta pelo enfrentamento da violência contra as mulheres.

O evento se estendeu por toda a tarde desta quinta-feira, com a palestra da professora Mirella Farias Rocha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sobre a formação social brasileira a partir do patriarcado, da família e das violências, e com o painel “Feminicídio: dados, causas e caminhos para o enfrentamento”, que reuniu especialistas para debater os impactos sociais, econômicos e estruturais desse fenômeno.

A programação continua nesta sexta-feira (12/6), com debates sobre violência virtual contra as mulheres, os obstáculos que dificultam a denúncia da violência doméstica e familiar, os direitos da população LGBTQIA+ e a interface da Lei Maria da Penha com mecanismos de prevenção e proteção. O encerramento contará com a palestra da professora Dabney P. Evans, da Emory University (Estados Unidos), que apresentará os avanços da pesquisa desenvolvida em parceria com o Poder Judiciário de Santa Catarina para a construção de um instrumento de avaliação de risco de feminicídio com foco no autor da violência.

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