19 dezembro 2025 | 14h00min
Virar uma página pode ser apenas um gesto simples ou o começo de uma nova história. Em Três Barras, esse movimento ganhou força com o projeto “Virando a Página”, desenvolvido pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Três Barras com o apoio do Poder Judiciário de Santa Catarina (PJSC), que transforma a leitura em oportunidade de mudança na vida de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto.
Mais do que incentivar a leitura, a iniciativa transforma a literatura em um espaço vivo de escuta, reflexão e abertura de novos caminhos. Cada obra lida se torna uma oportunidade de diálogo e de reconstrução das próprias histórias, fortalecendo o caráter educativo previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e na Lei do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase).
Para o juiz Lucas Chicoli Nunes Rosa, titular da Vara da Família, Infância e Juventude da comarca de Canoinhas, o projeto “Virando a Página” fortalece o sentido educativo e restaurativo das medidas em meio aberto ao transformar a leitura em oportunidade concreta de aprendizado, reflexão e responsabilização.
“Ele valoriza o protagonismo do adolescente e oferece uma chance real de ressignificar trajetórias, com acompanhamento técnico e critérios objetivos. Quando a medida socioeducativa deixa de ser apenas um cumprimento formal e se torna um caminho de construção de projeto de vida, o adolescente passa a ser reconhecido como sujeito em desenvolvimento, e a literatura pode ser uma porta de entrada potente para esse processo”, compartilha o magistrado.
Coordenado pelo psicólogo Jeferson Ostroski Martins, o projeto – que teve início em junho deste ano – conta com equipe técnica formada por assistente social, advogado e colaboradores das áreas de Direito, Filosofia e Ciências Humanas. O público atendido é composto por adolescentes entre 12 e 18 anos, autores de ato infracional, que passam a ter contato com a proposta já na elaboração do Plano Individual de Atendimento (PIA).
“A metodologia prevê encontros semanais no CREAS, com rodas de conversa, mediação de leitura, dinâmicas e produção de resenhas críticas. Os jovens escolhem livros que dialoguem com suas vivências, e o acompanhamento pedagógico inclui devolutivas técnicas e correções realizadas por professores da rede municipal. Para validar a atividade, é necessário atingir pontuação mínima e demonstrar participação ativa”, enfatiza Jeferson.
Ao final de cada ciclo, um relatório técnico-pedagógico é encaminhado ao Juízo da Infância e Juventude, sugerindo a redução de até 20% da medida de Liberdade Assistida (LA) ou da Prestação de Serviços à Comunidade (PSC), conforme o engajamento e a evolução do adolescente. O projeto também mantém registros individuais e promove avaliações coletivas, garantindo acompanhamento contínuo e humanizado.
O controle do “Virando a Página” é compartilhado entre o Poder Judiciário, o Ministério Público e o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, de acordo com o Plano Municipal de Atendimento Socioeducativo 2025–2035.
O projeto tem inspiração no documentário “Palavra Presa”, relacionado à trajetória do desembargador João Marcos Buch, do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). A produção retrata a atuação de João Marcos Buch quando juiz de execução penal, destacando seu trabalho nas prisões e projetos de incentivo à leitura para pessoas privadas de liberdade.