27 fevereiro 2026 | 15h40min
Entre máquinas de escrever, microcomputadores e a chegada da inteligência artificial, a trajetória de Clarice Liana Probst se confunde com a própria transformação do Judiciário. Após quase três décadas dedicadas ao Poder Judiciário de Santa Catarina, ela se despede com o sentimento de dever cumprido. Além do legado administrativo, deixa gerações de profissionais formados sob sua orientação e amizades que atravessam o tempo.
Sua entrada no Judiciário não foi um plano meticulosamente traçado. Em um momento de instabilidade financeira, o pai de seus filhos — já falecido — viu no jornal o anúncio do concurso e insistiu para que ela se inscrevesse. Clarice tinha outros planos, mas aceitou o desafio. Prestou a prova e conquistou o primeiro lugar. “Sou grata a ele por isso”, recorda. Também agradece à mãe — já falecida — pela insistência para cursar Administração, graduação que possibilitou a inscrição no concurso que transformaria sua vida.
Em 8 de outubro de 1996, tomou posse no cargo de secretária do foro. Em 2008, o cargo foi transformado em Analista Administrativo. Em 2010, assumiu como chefe da Secretaria do Foro, função que exerceu com dedicação até fevereiro deste ano. Foram quase três décadas dedicadas à Secretaria do Foro, que a tornaram uma referência na comarca.
Sua atuação no Poder Judiciário ultrapassou os limites da pacata São Bento do Sul. A servidora contribuiu em projetos de instalação, reestruturação e capacitação nas comarcas de Presidente Getúlio, Camboriú, Jaraguá do Sul e Araquari, além de colaborar com a Academia Judicial do TJSC. Atuou ainda na Diretoria de Material e Patrimônio (DMP) e na Diretoria de Orçamentos e Finanças (DOF), à época na Torre I do TJSC, no período posterior à implantação de novas comarcas.
Em três décadas de história, Clarice conta que os desafios foram inúmeros. Iniciou os trabalhos em uma máquina de escrever manual. Depois, celebrou a chegada da elétrica. Anos mais tarde, o microcomputador trouxe novas rotinas e exigiu reaprendizado. Hoje, vê o Judiciário conviver com robôs e inteligência artificial, realidade que jamais imaginou testemunhar. “Foi revolucionário”, resume, ao compartilhar que também viu a estrutura física da comarca mudar, do início das obras até o atual prédio do fórum.
A servidora ressalta ainda o desafio permanente de administrar recursos públicos, nem sempre disponíveis na urgência necessária, o que exigia criatividade, responsabilidade e equilíbrio. E, sobretudo, o desafio das relações humanas, internas e externas — “a tarefa mais complexa e mais rica”, segundo ela.
“Entre tantas responsabilidades, as maiores alegrias vieram das pessoas”, conta Clarice. O reconhecimento de servidores e colaboradores que aprenderam algo com ela, que transformaram comportamentos e cresceram profissionalmente, é uma das recompensas mais valiosas para ela. “Transmitir meu ofício a muitos colegas e vê-los se tornarem excelentes profissionais é profundamente recompensador”, afirma.
A sua cerimônia de despedida da rotina forense, que lotou o salão do Tribunal do Júri, foi embalada pela apresentação de dois músicos da Escola de Música Donaldo Ritzmann, de São Bento do Sul, que traduziram em notas o sentimento coletivo de gratidão. A homenagem, que reuniu magistrados, servidores, estagiários, terceirizados e voluntários da comarca, e contou com a presença de servidores e promotores do Ministério Público, teve ainda a presença especial de seus dois filhos, da nora e da irmã.
Em sua fala, o diretor do foro, juiz Felipe Nóbrega Silva, ressaltou o capricho, a organização, a atenção aos detalhes e o cuidado de Clarice com toda a equipe da comarca de São Bento do Sul. “Para mim, foi uma honra e uma satisfação muito grande ser diretor do foro e aprender com ela a forma de gestão deste prédio. A gente vê que a Clarice acompanhou — em 30 anos de história e 30 anos de Tribunal — as nossas mudanças, a nossa construção e a manutenção deste prédio. Quem vê a imponência dele sabe que, nessas paredes, há um pouco da história da Clarice, que ficará com a gente para sempre.”
Ao encerrar sua jornada no Judiciário catarinense, Clarice Liana Probst foi homenageada pelos colegas da comarca de São Bento do Sul com flores, presentes, placa comemorativa com a imagem do prédio do fórum e, ao final, foi ovacionada com uma salva de palmas em pé. Ela não deixa apenas a função, mas um legado de profissionalismo a todos com quem conviveu por tantos anos. “Foi um privilégio trabalhar nesta instituição da qual sempre me orgulhei. Eu fui muito feliz nestes quase 30 anos de Judiciário”, finaliza a agora servidora aposentada.