Relatos de mudança, histórias de transformação e muita escuta deram o tom da visita técnica do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) nesta quarta-feira, 22 de abril, à comarca de Blumenau, no Vale do Itajaí. Pela manhã, toda a rede de enfrentamento à violência contra a mulher esteve reunida para apresentar, de forma articulada, o funcionamento do grupo reflexivo local e o papel de cada instituição. À tarde, a comitiva acompanhou um encontro com homens autores de violência.
O Grupo de Trabalho para a elaboração de diretrizes nacionais sobre Grupos Reflexivos e Responsabilizantes de homens autores de violência doméstica e familiar contra as mulheres (GRH), no âmbito do Poder Judiciário, instituído pela Portaria Presidência CNJ nº 465, de 16 de dezembro de 2025, atua em três eixos: diretrizes normativas, mapeamento nacional e elaboração de um manual teórico-prático.
A juíza auxiliar da Presidência do CNJ Suzana Massako Hirama Loreto de Oliveira detalhou as frentes de atuação que motivaram a agenda em Santa Catarina. “O motivo que nos traz a Blumenau decorre de um grupo de trabalho no âmbito do CNJ que atua em três frentes: a elaboração de uma resolução sobre grupos reflexivos para homens autores de violência, a atualização do mapeamento nacional dessas iniciativas e a construção de um manual em linguagem simples, para ampliar a divulgação dessa metodologia, que é fundamental no enfrentamento da violência doméstica”, explicou.
Pela manhã, a comitiva teve a oportunidade de conhecer o histórico do grupo local, marcado pelo pioneirismo e pela longevidade. Trata-se de uma das experiências mais antigas do país, em funcionamento contínuo desde 2005, o que permite observar tanto a consolidação metodológica quanto os desafios de sustentabilidade ao longo do tempo. Também foram apresentadas as instituições que integram a rede e o trabalho desenvolvido de forma conjunta.
A agenda reuniu representantes de todas as entidades que compõem a rede de enfrentamento, incluindo o Poder Judiciário, a OAB de Blumenau, a Comissão OAB Por Elas, a Universidade Regional de Blumenau (Furb), o Núcleo de Prática Jurídica (NPJ) da Furb, a Defensoria Pública, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), a Secretaria de Desenvolvimento Social (Semudes), a Rede Catarina da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) e a Procuradoria da Mulher. Ao longo do encontro, a comitiva ouviu diferentes perspectivas, conheceu de perto a realidade local e compreendeu como as diversas frentes de atuação se articulam para fortalecer o enfrentamento à violência contra a mulher.
O desembargador Álvaro Kalix Ferro, coordenador do grupo de trabalho do CNJ, enfatizou os resultados observados. Segundo ele, a experiência de Blumenau demonstra e evidencia a importância de um trabalho efetivo, construído em rede, para consolidar a prática. Ao comentar o acompanhamento do grupo reflexivo, destacou o impacto do momento como um encerramento “com chave de ouro”.
“Tivemos a oportunidade de compartilhar relatos e experiências que demonstram que os grupos reflexivos são uma metodologia que pode salvar vidas. Temos certeza de que esse trabalho merece ser replicado”, afirmou.
Ainda emocionado com o reconhecimento e a visita do CNJ, o assistente social Ricardo Bortoli, coordenador do grupo reflexivo em Blumenau, destacou o papel da iniciativa ao longo de mais de duas décadas.
“O grupo reflexivo é um instrumento fundamental no enfrentamento à violência contra a mulher. Ele cria um espaço de escuta, acolhimento e ressignificação das relações familiares. Saber que Blumenau é referência é um privilégio. Esperamos que essa experiência inspire outras instituições e fortaleça a rede, para que as mulheres possam viver sem medo”, completou, ao dizer que o reconhecimento nacional reforça a importância da política pública.
A coordenadora adjunta do grupo de trabalho, juíza catarinense Naiara Brancher, ressaltou a consistência do modelo desenvolvido no Estado. “Santa Catarina construiu um trabalho interinstitucional sólido, com metodologia estruturada, produção de conhecimento e atuação em rede. Mostrar isso na prática contribui diretamente para o aprimoramento das diretrizes nacionais”, pontuou.
A programação da comitiva segue nesta quinta-feira, dia 23 de abril, em Florianópolis. A agenda inclui reunião na sede do TJSC para discutir medidas protetivas de urgência, além de visita ao Projeto Ágora, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A comitiva participa de uma supervisão técnica dos grupos reflexivos, modelo que contribui para a qualificação das equipes e para o aprimoramento das metodologias adotadas.
O grupo de trabalho do CNJ dedicado ao tema tem como coordenadora adjunta a juíza catarinense Naiara Brancher e conta com a participação da servidora Michelle de Souza Gomes Hugill, do TJSC, atualmente à disposição do CNJ. Além delas, integraram a comitiva o coordenador do grupo de trabalho, desembargador Álvaro Kalix Ferro; a juíza auxiliar da Presidência do CNJ Suzana Massako Hirama Loreto de Oliveira; o juiz Marcelo Gonçalves de Paula; a servidora Ceciana Ames Schallenberger; e a secretária da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (CEVID), Cibelene Piazza Ferreira.