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“Uma lei não muda o caldo de cultura que cria o machismo”, afirma Vera Iaconelli no TJSC - Imprensa - Poder Judiciário de Santa Catarina
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“Uma lei não muda o caldo de cultura que cria o machismo”, afirma Vera Iaconelli no TJSC
Em evento sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, psicanalista aponta caminhos para enfrentar a violência contra as mulheres
10 agosto 2026 | 15h36min
Por que, depois de tantas conquistas e de 20 anos da Lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres persiste e aumenta? Para a psicanalista Vera Iaconelli, compreender esse paradoxo passa pela forma como nossa sociedade construiu, ao longo da história, os lugares ocupados por homens e mulheres. A crescente autonomia feminina, segundo ela, colocou em xeque um modelo de masculinidade baseado na ascendência sobre a mulher, e a violência pode surgir como reação à perda desse lugar.
A reflexão conduziu a palestra “O Futuro que Precisamos Construir para as Mulheres: entre urgências do presente e esperanças do amanhã”, que encerrou o seminário “Lei Maria da Penha – 20 anos: evolução, efetividade e desafios no sistema de justiça”, na sexta-feira, 7 de agosto, no Tribunal de Justiça de Santa Catarina. O evento foi promovido pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) e pela Academia Judicial.
Diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, autora de Manifesto Antimaternalista e Felicidade Ordinária e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), Vera percorreu história, antropologia e psicanálise para discutir as raízes culturais da desigualdade.
A psicanalista questionou a ideia de que diferenças biológicas entre homens e mulheres expliquem, por si mesmas, os papéis que cada um ocupa na sociedade. Diferentes comunidades organizaram tarefas de maneiras diversas, observou, e essa divisão mudou conforme a época e a cultura. O problema surge quando a diferença passa a justificar hierarquia, com mais direitos e poder para um grupo do que para outro.
Para Vera, comportamentos frequentemente apresentados como naturais são atravessados pela cultura e pela linguagem. Isso vale para ideias sobre maternidade, cuidado, sexualidade e violência, como a noção de que mulheres teriam uma aptidão instintiva para cuidar ou determinados comportamentos masculinos fariam parte da natureza dos homens.
O trabalho invisível das mulheres
Ao reconstruir a divisão dos papéis na família moderna, Vera mostrou como o cuidado passou a ser atribuído às mulheres. Enquanto o homem ocupava o lugar de provedor e seu trabalho remunerado ganhava reconhecimento, cabia à mulher cuidar dos filhos, da casa e das necessidades da família. Essas tarefas não eram reconhecidas como trabalho, mas como expressão de amor, obrigação, vocação ou parte da própria natureza feminina.
Vera também contestou a ideia de que as mulheres ingressaram no mercado de trabalho a partir das transformações sociais dos anos 1960. “As mulheres sempre trabalharam”, destacou. A mudança, segundo ela, ocorreu quando passaram a reivindicar carreira, remuneração, reconhecimento e os mesmos espaços profissionais dos homens. Com renda, direitos e maior autonomia, as mulheres passaram também a questionar um modelo de relação sustentado pela divisão entre o homem provedor e a mulher cuidadora.
O “não” das mulheres
É nessa mudança que Vera situa uma das tensões do presente. Se a feminilidade foi associada ao cuidado, a masculinidade construiu-se a partir da ideia de poder e ascendência, sobretudo sobre a mulher. Agora, homens são chamados a dividir o cuidado e estabelecer relações em condições mais igualitárias.
Ao mesmo tempo, mulheres que antes dependiam materialmente do casamento conquistaram condições para permanecer em uma relação por desejo, e não por necessidade. Para Vera, essa transformação ajuda a compreender a reação violenta de homens que ainda esperam ocupar o lugar de autoridade prometido pelo antigo modelo. “Como uma mulher pode não me obedecer, não aceitar o meu desejo? Não era este o combinado”, provocou a psicanalista.
A autonomia feminina, portanto, não encerra a violência. Em determinadas relações, expõe o conflito entre mulheres que passaram a exercer o direito de dizer não e homens que não aprenderam a construir a própria identidade sem exercer poder sobre elas. “É por isso que elas estão sendo mortas, porque elas estão dizendo um não para valer e os homens não estão sabendo o que fazer com a sua masculinidade diante desta negativa”, afirmou Vera.
Quando amor e violência se misturam
A análise também alcançou uma questão que desafia profissionais do sistema de proteção: por que uma mulher permanece com um agressor ou retorna a uma relação violenta? Vera alertou para o risco de interpretar essas situações apenas como decisões racionais. Quando alguém cresce em um ambiente no qual afeto e violência aparecem associados, essa ligação pode permanecer inscrita subjetivamente, mesmo que, de maneira consciente, saiba que agressão e amor são incompatíveis.
“Enquanto a gente não entender que a pessoa está capturada numa cena inconsciente que ela repete, a gente vai ficar com muita raiva dela”, disse.
A reflexão alcança quem atende essas vítimas. Profissionais também carregam valores, expectativas e preconceitos construídos socialmente. Diante de uma mulher que retorna ao agressor, a frustração pode se transformar em julgamento, em vez de compreensão sobre a complexidade da situação.
Homens precisam aprender a cuidar
Se o cuidado não é uma capacidade biologicamente reservada às mulheres, uma das mudanças necessárias passa pela educação dos meninos. Questionada sobre como formar novas masculinidades livres de violência, Vera propôs menos discursos abstratos e mais experiência cotidiana de responsabilidade.
“Sabe o que talvez seja a coisa mais revolucionária para começar a conversa com os meninos? Colocar esses meninos para cuidar deles, para cuidar da comida, da roupa, da cama, da limpeza pessoal. Colocar esses meninos para trabalhar dentro de casa, para valer”, afirmou. O aprendizado do cuidado significa ensiná-los a assumir responsabilidades pela própria vida e pelas pessoas com quem convivem.
Vera levou esse raciocínio também ao trabalho com homens autores de violência. A escuta desses sujeitos, explicou, pode revelar uma fragilidade que a agressividade procura esconder. Reconhecê-la não significa retirar a responsabilidade de quem agride, mas compreender os mecanismos envolvidos para transformá-los. “Você vê a fragilidade que a violência tenta encobrir”, afirmou.
Mudar a cultura exige mais do que uma lei
Ao voltar aos 20 anos da Lei Maria da Penha, Vera ressaltou a importância da legislação, mas advertiu contra a expectativa de que a legislação consiga modificar padrões construídos durante séculos.
“Uma lei afeta a mentalidade, mas ela não muda o caldo de cultura que cria o machismo”, afirmou. Por isso, o enfrentamento à violência exige ações simultâneas, como formação dos profissionais, educação sobre consentimento e relações de gênero, políticas públicas e mudanças nas relações familiares. “Não tem bala de prata.”
A redistribuição do cuidado também não pode ficar restrita aos casais. Ela defendeu que empresas, sociedade e Estado assumam parte dessa responsabilidade, com estruturas e políticas que reduzam a sobrecarga historicamente atribuída às mulheres. Essa mudança, sustentou, não pressupõe a criação de um modelo rígido de “novo homem”, mas uma postura ética capaz de reconhecer a mulher como sujeito autônomo, dividir responsabilidades e abandonar a ideia de que masculinidade depende de ascendência sobre alguém.
Vera encerrou a palestra lembrando que esses homens já existem: pais que assumem o cuidado dos filhos, companheiros que dividem responsabilidades e homens dispostos a rever os próprios comportamentos. A transformação, acrescentou, depende da disposição para reconhecer contradições e preconceitos.