14 agosto 2026 | 18h15min
“Por que ser mulher é viver com medo? Por que nos matam? Existem perguntas, mas nunca as respostas. Por que eu não posso andar na rua de noite? Por que minha mãe fala que nesse mundo existe gente maldosa? Por que aparece mais um caso de feminicídio na TV? Onde estavam as leis enquanto o sangue escorria no horário do almoço na TV? Crianças mortas pelos ex-companheiros de sua mãe. Quem protege essas crianças? Até quando isso vai continuar?”
Este é o parágrafo inicial da redação de Milena Mariza Ismael Pereira, aluna do 9º ano da Escola Manoel Roldão das Neves, de Biguaçu. O texto integra a exposição “20 Anos da Lei Maria da Penha: Avanços e Desafios para uma Sociedade sem Violência contra a Mulher”, que permanece no hall do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) até 31 de agosto. A mostra reúne textos e fotos de estudantes dos ensinos fundamental e médio que participam do concurso municipal, cujos vencedores serão conhecidos na próxima quinta-feira, 20 de agosto, em cerimônia no auditório Teori Zavascki. A expectativa é reunir cerca de 100 estudantes.
A idealização da mostra no TJ é da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica (Cevid), que promove palestras e rodas de conversa nas escolas do Estado. “É necessário ouvir esses jovens, dar visibilidade para o que pensam”, diz a desembargadora Hildemar Meneguzzi de Carvalho, coordenadora da Cevid. “Não adianta apenas punir, é necessário conversar com as crianças e adolescentes sobre a importância de se construir uma sociedade sem desigualdade de gênero, com mais respeito e paz para todas e todos”, complementa.
Sob o título “Nem tudo que parece amor é amor”, a estudante Julia Vitória de Lima da Silva, aluna do 6º ano da Escola Fernando B. Viegas de Amorim, escreve um conto sobre Ana, personagem ficcional que percebe estar numa relação abusiva. “Ele era gentil, atencioso e fazia promessas de um futuro feliz. Mas, aos poucos, as palavras e o carinho foram dando lugar às críticas, ao controle e ao medo. Ana deixou de usar a roupa de que gostava, parou de falar com amigas e até não saía mais de casa. Ela sentia medo, mas também vergonha de contar para alguém. O que antes era amor, agora parecia prisão.”
Um dos desenhos, assinado por Olandina de Liz, sem a identificação do ano escolar, mostra uma mulher deixando uma prisão, cujas grades representam diferentes formas de violência. Do outro lado, ela aparece cercada por flores e borboletas, carregando livros com palavras como “estudo”, “sonhos” e “liberdade”.
Com a colaboração do Museu Desembargador Tycho Brahe Fernandes Neto, a exposição traz ainda os originais de um processo judicial de 1892, no qual um homem foi condenado a 21 anos de prisão por ter assassinado a esposa a facadas. A sentença é assinada pelo magistrado Euclides Fausto de Souza, da Comarca de São Francisco do Sul. “Naquele tempo, não havia mecanismos legais específicos para proteger as mulheres, e o silêncio social muitas vezes encobria a gravidade desses crimes. Transformamos registros históricos em instrumentos de reflexão, conscientização e promoção dos direitos humanos”, diz Sandro Makowieck, servidor do Museu.
Imagens: Cristiano Estrela/TJSC
Conteúdo:
Diretoria de Comunicação/DCOM