Apostar não é investir: a tentação do dinheiro “fácil”! - Servidor - Poder Judiciário de Santa Catarina
Dicas financeiras
Você sabia que apostar não é investir? Por mais básica que seja essa diferenciação, há pessoas que encaram as apostas como oportunidades de investimento: querem acertar precisamente qual será a próxima “bola da vez” dos investimentos, ou seja, aquela aplicação que trará os maiores ganhos de uma vida inteira.
Se até para profissionais de finanças, que costumam analisar e estudar o mercado financeiro o dia inteiro (e todos os dias), é difícil acertar todas as escolhas, para quem tem pouco contato com o tema é extremamente improvável.
Que fique claro que não há problema em querer arriscar ou até fazer apostas, seja em qual será a próxima empresa que multiplicará o capital, se o dólar vai subir ou cair ou até se o time do coração ganhará a próxima partida de futebol. No entanto, o aconselhável é ter clareza de que aposta não é investimento.
Dito isso, é necessário termos essa diferenciação em mente a fim de, se decidir arriscar, destinar apenas uma pequena parte do capital (ou do que sobra dos rendimentos), tendo em vista que a maior parte de nossos recursos deve ser destinada para o que é mais seguro, previsível, ou para o que conhecemos melhor. Dessa maneira, caso ocorram perdas decorrentes de promessas de altos e rápidos ganhos não concretizados, será de pequena parcela de recursos, o que não trará grande impacto sobre o patrimônio total.
Na última febre das criptomoedas surgiram histórias de pessoas que venderam imóveis ou disponibilizaram parte considerável do patrimônio para investir (ou arriscar) no bitcoin e outras criptomoedas acreditando que logo estariam milionárias2. No entanto, o que ocorreu de fato foi que, com a grande queda subsequente, perderam grande parte do capital aplicado. Para exemplificar, quem aplicou R$ 10.000 em bitcoin e, no desespero da baixa, resgatou R$ 3.000 teve queda de 70% no investimento, ou seja, perdeu R$ 7.000. Já quem arriscou R$ 300.000 no sonho de ficar rico rápido perdeu os mesmos 70%, no entanto esse percentual representou R$ 210.000. Considerando os montantes perdidos, será mesmo que vale correr tanto risco?
A possibilidade de multiplicar o capital de forma rápida é sedutora. Afinal de contas, quem não gostaria de se aposentar antes do tempo e de não precisar mais se preocupar com dinheiro? Porém, o fato é que poucas pessoas conseguem essa façanha, enquanto a maioria que entrou “na alta” ou “no fim da fila” acaba ficando em condição financeira pior do que se encontrava antes.
A febre das criptomoedas de alguns anos atrás foi atualmente substituída por jogos de azar em sites de apostas on-line (as chamadas bets). Para se ter ideia das somas envolvidas, estima-se que no Brasil, apenas em agosto de 2024, montante de cerca de R$ 20 bilhões tenha sido direcionado para apostas e jogos de azar1. Além disso, em 2023 houve percentual maior da população fazendo apostas e jogos on-line do que investindo na bolsa de valores (14% contra 2%), sendo a poupança o único investimento maior do que as bets (25% da população com caderneta de poupança)3.
Levantamento realizado pelo Banco Central estima que grande parte dos apostadores possui idade entre 20 e 30 anos1. Nessa mesma linha, a pesquisa Investidor Brasileiro, realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) constatou que entre os apostadores predominam pessoas do sexo masculino (63%) e que a maioria é das classes A, B e C3.
Como se costuma dizer, “a banca nunca perde!”. Por isso, é necessário ter em conta que apostas e jogos de azar são desenvolvidos para que os participantes não tenham chance de ganhar, pois é assim que aquele negócio faz dinheiro. No levantamento da Anbima citado acima se verificou que para cerca de 22% das pessoas consultadas as apostas esportivas eram consideradas investimento e que eram realizadas com o intuito de auferir renda3. Para fugir da arapuca do dinheiro fácil e rápido é preciso não dar ouvidos às dicas “quentes” de influenciadores e influenciadoras, assim como não se deslumbrar com as propagandas (enganosas!) de sites de apostas e similares.
Uma verdade que nem sempre é fácil de aceitar e que justamente por ser verdade pode ajudar é que investir um pouco todo mês durante muitos anos possivelmente não te deixe milionário, porém é muito provável que não cause prejuízos. Em síntese, colherá melhores frutos quem se lembrar que vale mais investir do que apostar. Para tanto, é necessário desenvolver o hábito de poupar dinheiro com frequência e de investir com consistência, ou seja, de maneira constante e para prazos mais longos. É como diziam os antepassados: “de grão em grão a galinha enche o papo!”.
Elaboração
Cristiano Minuzzi Debiasi
Equipe do Programa de Educação Financeira
E-mail: educacaofinanceira@tjsc.jus.br
Referências
(1) MALAFAIA, Marcela Toniolo. Bets: R$ 20,8 bilhões foram gastos em jogos de aposta em agosto, mostra o Banco Central. Money Times, 25 de setembro de 2024. Economia. Disponível em: https://www.moneytimes.com.br/r-208-bilhoes-foram-gastos-em-jogos-de-aposta-mostra-o-banco-central-mtm/. Acesso em: 22 out. 2024.
(2) SUZUKI, Shin. ‘Perdi valor de uma casa em criptomoedas’: os brasileiros que viram suas economias sumirem na FTX. BBC News Brasil, São Paulo, 13 de dezembro de 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63867945. Acesso em: 21 out. 2024.
(3) TAGIAROLI, Guilherme. Grana e adrenalina: mais brasileiros fazem apostas do que investem na Bolsa. UOL, São Paulo, 4 de junho de 2024. Economia. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2024/06/04/bets-anbima-maior-investimento-bolsa.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 22 out. 2024.