Cuidados na aplicação em produtos financeiros - Servidor - Poder Judiciário de Santa Catarina
Dicas financeiras
Você também pode acessar um resumo desta dica em vídeo animação. Basta clicar no link abaixo:
Vídeo animação - Dica Financeira - Cuidados na aplicação em produtos financeiros
No mês de novembro do ano de 2025, diversas manchetes noticiaram a decretação, pelo Banco Central do Brasil, da liquidação do Banco Master. O episódio serve de alerta para todas as pessoas que aplicam os seus recursos em produtos de renda fixa, como os certificados de depósitos bancários – CDBs, as LCIs, as LCAs, e acreditam estar isentas de riscos no mercado financeiro ao investirem nestes títulos.
Estima-se que cerca de 1,6 milhão de investidores pessoas físicas compraram produtos de investimento, como CDBs, do Banco Master e foram afetados pela liquidação. Além disso, tal medida afeta um total estimado de 12,4 milhões de clientes, incluindo correntistas e outros, além de dezenas de fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), os quais somam bilhões em valor de mercado.
Outro evento importante ocorrido no mesmo período foi o prejuízo sofrido por alguns investidores que adquiriram Certificados de Operações Estruturadas, conhecidos como COEs, ligados à dívida das empresas Ambipar S.A. e Braskem S.A. Não se sabe o número exato, mas se estima que milhares de pessoas amargaram prejuízos entre 70% a 93% do valor investido.
O alerta que se pretende fazer aqui – e uma das principais bandeiras do Programa de Educação Financeira – é: antes de investir qualquer capital, estude muito bem sobre o produto financeiro escolhido! Entenda as suas características, os riscos envolvidos, as taxas existentes e, o mais importante: se ele está de acordo com a sua carteira de investimentos e com o seu perfil de investidor!
Mas quais são os principais cuidados que o poupador deve ter no instante da aplicação da sua árdua economia em títulos de renda fixa, fundos de investimento, operações estruturadas, produtos previdenciários ou ativos de renda variável? Aos prejudicados, será possível acionar o Fundo Garantidor de Crédito – FGC?
Acompanhe a nossa dica financeira e evite sustos com o seu patrimônio e os seus investimentos! Confira!
-
Contextualização
Mas, afinal, por que as notícias da liquidação do Banco Master e dos COEs da Ambipar e da Braskem são tão importante?
Porque não atingiram diretamente aqueles investidores com alto apetite ao risco, como negociadores de criptomoedas ou de ações internacionais de empresas pouco conhecidas. Ao contrário. Prejudicaram os poupadores que adquiriram certificados de depósitos bancários (CDBs), títulos de renda fixa, ou os COEs, estes sob a narrativa de “risco protegido”.
Portanto, é possível, mesmo dentro dos ativos de renda fixa, ter prejuízos ou acessar produtos mais arriscados do que alguns ativos de renda variável!
Eis os principais cuidados na aplicação dos produtos financeiros:
-
Primeiro cuidado: atenção ao emissor do título
Já dissemos na nossa dica intitulada “O que é CDB?”, que o investidor, ao adquirir um certificado de depósito bancário – CDB, está, na prática, emprestando dinheiro ao banco, que lhe remunerará com juros. Desse modo, o consumidor é livre para escolher o banco que bem entender.
O que aconteceu no episódio do Banco Master é que tal instituição financeira disponibilizava os seus títulos ao mercado em taxas maiores do que a média dos seus pares.
O poupador – no afã de buscar maior retorno e acreditando estar diante de produto com risco baixo ou nulo – acabou adquirindo tais títulos. Contudo, mal sabia que a solvência financeira da instituição, sobretudo nos últimos cinco anos, já apresentava sinais de atenção, pois a maioria dos seus créditos estava lastreada em precatórios e direitos creditórios (títulos que, embora de recebimento certo, não possuem data certa para o crédito).
Há uma máxima no mercado financeiro a que qualquer consumidor precisa estar atento: “quanto maior o retorno oferecido, maior o risco!”
Outro importante vetor no exame da saúde financeira dos conglomerados bancários é o índice de Basileia, indicador responsável por medir a capacidade de um banco absorver perdas, sendo o mínimo exigido pelo Banco Central do Brasil de 10,5%. De 2021 a 2025, o Banco Master sempre ficou entre 10,51% a 12,32%, e em algumas oportunidades necessitou de aportes extraordinários de investidores para elevar o percentual.
-
Segundo cuidado: liquidez do investimento
Aqui, a atenção diz respeito ao tempo do vencimento do título. Ou seja, o investidor até pode adquirir um CDB com vencimento para daqui a cinco anos, por exemplo. No entanto, é fundamental ter em mente que não poderá contar com este recurso pelo período contratado. Nesta hipótese, por certo que tal investimento deve ser de médio ou longo prazos.
Dito com outras palavras, o consumidor precisa ter um planejamento patrimonial detalhado para distribuir, dentro do seu capital, a parcela que compõe a reserva de emergência, daquela outra destinada a garantir a sua previdência ou, aí sim, um investimento de médio ou longo prazos.
Já mencionamos em nossa dica financeira – e não custa recordar – que a reserva de emergência, primeira fatia para a formação de qualquer carteira de investimentos, precisa estar alocada em produto financeiro com liquidez diária.
-
Terceiro cuidado: entender a forma de rendimento do produto financeiro
Basicamente, há três formas de rentabilidade dos investimentos. Saber como eles rendem é fundamental – e é dever do profissional financeiro, devidamente credenciado, orientar o cliente nesse sentido –, também porque cada modalidade precisa estar vinculada ao objetivo pretendido com aquele investimento.
Os papeis pós-fixados são os mais conservadores. Acompanham determinado índice. Geralmente a taxa SELIC, índice básico da economia, ou o IPCA, índice de preços que mede a inflação. Neste caso, ao contratar um título pós-fixado, o investidor deve saber que a variação do título seguirá o índice de referência.
Nos produtos prefixados, a taxa é definida no ato da contratação. Assim, se no dia da aquisição a taxa SELIC estava em 15%, mas anos depois ela cair para 12%, o poupador terá em seu favor a certeza de que será remunerado pela taxa do dia da contratação. O inverso também pode ocorrer. Isto é, adquirir um título a 15% e a SELIC subir para, por exemplo, 17%. Aqui, o poupador ficará atrelado ao patamar de 15%. Como se vê, há mais risco na contratação de títulos prefixados.
Há, também, os títulos híbridos, os quais carregam parcela fixa nominal e parcela variável. Ideal para investimentos de longo prazo, nos quais o poupador não precisará dos recursos com urgência ou imediatidade.
-
Quarto cuidado: custos e impostos
Alguns investimentos, tanto de renda fixa quanto de renda variável, têm taxas, como a taxa de administração – presentes nos fundos de investimento –, corretagem ou taxas de custódia – presentes nos títulos do Tesouro Direto. Mesmo aparentemente pequenos, os custos reduzem o rendimento final.
Além disso, há a cobrança de imposto de renda, cuja alíquota, nos produtos de renda fixa, diminui com o tempo.
Saber comparar a rentabilidade entre diferentes títulos é importante, visto que, às vezes, mesmo com a isenção existente para as LCIs, LCAs, CRIs, CRAs, e debêntures incentivadas, o retorno final pode ser menor do que um CDB com alíquota comum.
Como exemplo, basta comparar uma LCI de 80% do CDI com um CDB de 110% do CDI, ambos com idêntica data de vencimento. O último, mesmo pagando IR, terá retorno final maior.
A calculadora on lilne gratuita disponível no site “Clube dos Poupadores” permite comparar diferentes títulos. Para realizar o cálculo, basta clicar no seguinte link: https://clubedospoupadores.com/calculadora-percentual-cdi
Portanto, entender quanto se paga de taxas e impostos é fundamental e auxilia o investidor a não ter surpresas desagradáveis acaso se depare com cenários econômicos desfavoráveis.
-
Quinto cuidado: promessa de lucro fácil
O motivo da compra de títulos do Banco Master, ou da contratação de COEs da Ambipar e da Braskem passa, em boa medida, pela ganância do investidor com as altas taxas de rentabilidade disponíveis. Mas é preciso frisar: não existe lucro futuro certo! Investimentos bem-sucedidos no passado não necessariamente o serão no futuro!
Na nossa dica intitulada “Apostar não é investir: a tentação do dinheiro fácil”, registramos que:
[...] investir um pouco todo mês durante muitos anos possivelmente não te deixe milionário, porém é muito provável que não cause prejuízos. Em síntese, colherá melhores frutos quem se lembrar que vale mais investir do que apostar. Para tanto, é necessário desenvolver o hábito de poupar dinheiro com frequência [...]
No caso dos COEs da Ambipar, vários investidores relataram que a informação não lhes foi clara. Porém, mesmo assim, contrataram os produtos. Segundo Nathália Langhi e Marcelo d’Agosto (2025):
[...] Nos COEs de crédito, a rentabilidade está ligada ao risco de crédito de uma empresa ou país específico. Se o emissor do título pagar tudo que deve, o retorno do COE é superior às taxas de mercado para investimentos semelhantes. Mas se o emissor enfrentar problemas financeiros, der um calote, ou mesmo atrasar o pagamento intermediário de uma parcela da dívida, o investidor pode perder parte ou até mesmo todo (isso mesmo, 100%) o valor investido. [...]
No caso da Ambipar, diante das notícias de problemas financeiros e com a superveniência de um pedido de recuperação judicial, os papeis da empresa passaram a ser negociados a apenas 13% do seu valor de face. Como as COEs replicavam este risco, o prejuízo veio a reboque com a desvalorização e a perda do valor de mercado da empresa.
Investimentos muito complexos, repletos de operações estruturadas, e dependentes de variados eventos econômicos, geralmente são carregados de risco.
No caso dos COEs, infelizmente, quem perdeu dinheiro pode, no máximo, registrar uma reclamação em sites de proteção ao consumidor, uma vez que o contrato previa tal possibilidade. Daí a importância de pedir as lâminas, os prospectos e toda a documentação possível antes de realizar os aportes. Por sua vez, os detentores de CDBs do Banco Master poderão acionar o Fundo Garantidor de Crédito – FGC, desde que preenchidas determinadas condições, conforme explanado a seguir.
-
Fundo Garantidor de Crédito – FGC
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é uma entidade privada, sem fins lucrativos, criada para proteger depositantes e investidores em caso de quebra de instituições financeiras.
Ele funciona como uma espécie de “seguro” para determinados produtos bancários, garantindo que o cliente receba seu dinheiro até um limite estabelecido, mesmo que o banco emissor não consiga honrar seus compromissos. Esse mecanismo aumenta a confiança no sistema financeiro e reduz o impacto de eventuais falências sobre o público.
A proteção do FGC cobre diversos tipos de produtos, como contas poupança, CDBs, LCIs, LCAs, letras de câmbio e outros títulos emitidos por instituições financeiras associadas.
O limite de garantia é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira, considerando o conjunto de investimentos elegíveis.
Outra característica importante é o funcionamento do processo de ressarcimento: quando ocorre a intervenção ou a liquidação de uma instituição, o FGC é acionado e inicia a verificação dos valores de cada cliente, realizando os pagamentos de forma gradual e organizada. Embora o prazo possa variar conforme a complexidade do caso, o objetivo é garantir agilidade para que o investidor tenha acesso ao dinheiro o mais rápido possível. Assim, o FGC atua como um pilar de segurança para quem investe em produtos bancários, ajudando a reduzir riscos e trazer mais estabilidade ao mercado financeiro.
Em resumo, investir em renda fixa é um bom caminho para quem está começando, mas não dispensa atenção. Conhecer o risco do emissor, entender a forma de rentabilidade, verificar o prazo, analisar os custos e desconfiar de promessas exageradas são passos fundamentais para tomar decisões mais seguras. Com esses cuidados, até quem ainda não domina o mercado financeiro pode investir com mais tranquilidade e consciência.
E aí? Você adquiriu algum produto do Banco Master? Ou COE da Ambipar? Quer saber mais sobre este ou outro assunto? Não se esqueça: converse com um profissional credenciado para tratar de produtos financeiros, e, se preferir, agende conosco um encontro sobre qualquer tema relacionado à educação financeira!
Para agendar atendimento exclusivo e reservado com a equipe do Programa de Educação Financeira ou sugerir conteúdo para nossas ações, mande o seu e-mail para educacaofinanceira@tjsc.jus.br.
Elaboração:
Leandro Ambros Gallon
Equipe do Programa de Educação Financeira
E-mail: educacaofinanceira@tjsc.jus.br
Referências:
Calculadora Percentual do CDI: Comparação CDB, LCI, LCA e LCD. Clube dos poupadores. Acesso em: 5 dez. 2025. Disponível em: https://clubedospoupadores.com/calculadora-percentual-cdi
LANGHI, Nathália; D'AGOSTO, Marcelo. Entenda o que aconteceu com o COE da Ambipar (e por que isso acende um alerta sobre COEs de crédito). 8 out. 2025. Valor Investe S.A.. São Paulo, SP. Acesso em: 5 dez. 2025. Disponível em: https://valorinveste.globo.com/produtos/coe/noticia/2025/10/08/entenda-o-que-aconteceu-com-o-coe-da-ambipar-e-por-que-isso-acende-um-alerta-sobre-coes-de-credito.ghtml
LCIs e LCAs continuam isentas. Veja quanto pagam esses títulos hoje e como avaliar se vale apena investir. Bora Investir. B3 S.A. - Brasil, Bolsa, Balcão. 8 out. 2025. Acesso em: 5 dez. 2025. Disponível em: https://borainvestir.b3.com.br/tipos-de-investimentos/renda-fixa/lci-lca-e-lc/lcis-e-lcas-continuam-isentas-veja-quanto-pagam-esses-titulos-hoje-e-como-avaliar-se-vale-apena-investir/#:~:text=LCIs%20e%20LCAs%20continuam%20isentas,avaliar%20se%20vale%20apena%20investir