Juíza Mônica fala sobre legado deixado por sua tia, desembargadora Thereza Grisólia Tang - Imprensa - Poder Judiciário de Santa Catarina
Sobrinha revisita trajetória da pioneira que transformou Judiciário catarinense e inspirou gerações
Nesta semana em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a lembrança de trajetórias pioneiras se torna ainda mais essencial, e poucas histórias são tão emblemáticas da luta feminina no Judiciário quanto a de Thereza Grisólia Tang, uma das primeiras juízas do Brasil e a primeira mulher a se tornar desembargadora e presidente de um Tribunal de Justiça no país.
Nascida em 10 de fevereiro de 1922, no Rio Grande do Sul, sua vida foi marcada pela determinação. Seu ingresso na magistratura ocorreu em 1954, quando foi aprovada em concurso e nomeada juíza substituta em Criciúma. A partir daí, percorreu diversas comarcas catarinenses, como Palhoça, São José, Laguna e Florianópolis.
Durante cerca de 20 anos, foi a única mulher entre os magistrados do Judiciário de Santa Catarina. Em 1975, Thereza ascendeu ao cargo de desembargadora e assim tornou-se também a primeira mulher a ocupar esse posto no estado e no país. Sua presidência marcou a primeira e única vez que uma mulher ocupou o mais alto cargo da instituição. Thereza também se destacou por sua atuação humana. Como corregedora, defendeu melhorias nas condições das mulheres privadas de liberdade, além de trabalhar por avanços nas áreas da infância e juventude.
Ela se aposentou compulsoriamente aos 70 anos. Faleceu em 17 de outubro de 2009, com 87 anos. Mesmo no último desejo, demonstrou orgulho pela profissão, pois pediu para ser enterrada de toga.
O legado que atravessa gerações
O impacto de Thereza ultrapassou sua própria trajetória. Sua sobrinha, Mônica do Rego Barros Grisólia, titular da 2ª Vara Cível da comarca de Lages, cresceu admirando a pioneira e seguiu o mesmo caminho. No início da carreira, em 2009, como juíza substituta na mesma comarca serrana, comandou a instalação da Vara da Infância e Juventude e lá demonstrou engajamento social semelhante ao de sua tia.
A magistrada conta a seguir sobre a influência da tia em sua vida e como vê o pioneirismo que inspira o presente.
NCI - Quais lembranças pessoais mais fortes a senhora guarda dela?
Eu morei com a tia Thereza por um ano. Sempre me lembro dela à mesa, a forma delicada como comia e a pouca quantidade. Me dizia todos os dias que a gente come para viver e não vive para comer. Era sempre uma dama, arrumada, ainda que dentro de casa.
NCI - Em casa, ela falava sobre os desafios de ser a única mulher na magistratura catarinense por tantos anos?
Sempre que conversávamos, ela dizia o quão difícil foi se impor perante tantos homens no TJSC, e que lutava diuturnamente para tanto. Falava que o segredo era eles pensarem que as ideias que ela teve partiram deles para serem aprovadas.
NCI - Há algum conselho ou frase marcante que ela costumava repetir e que a acompanha até hoje?
Ela disse que, por mais alto que fosse o cargo que eu viesse a ocupar, nunca deveria deixar de me postar e vestir como mulher. Ela nunca usou calça comprida, sempre saias.
NCI - A senhora ingressou na magistratura por influência dela? Como esse estímulo ocorreu na prática?
Meu pai, irmão dela, tinha o sonho de que eu fosse magistrada igual a ela. Eu queria ser veterinária. Fui trabalhar no TJSC como assessora e morava com a tia. Ela me pediu que fizesse o concurso, já que a filha dela foi morar na Suíça e seguiu outra carreira. Morando com ela, me senti na obrigação de ao menos fazer o concurso para mostrar que jamais passaria, e acabei passando.
NCI - Quais valores ou princípios profissionais da desembargadora Thereza a senhora buscou levar para sua própria atuação?
Sempre ser feminina, humilde, dar voz aos mais fracos e ser honesta.
NCI - Na sua visão, qual foi o maior impacto pioneiro de Thereza Tang para o Judiciário brasileiro?
Incentivou outras mulheres a seguir a carreira jurídica. Afinal, à frente de seu tempo, deixava de lado os afazeres domésticos para 'ajudar os mais fracos a verem reconhecidos seus direitos', como dizia.
NCI - A senhora acredita que o fato de sua tia ter sido a primeira mulher juíza, desembargadora e presidente do TJSC abriu portas concretas para outras magistradas na época?
Hoje vejo que ela sempre lutou para que as portas às mulheres na área jurídica fossem abertas. Ela dizia isto: queria que se inspirassem nela.
NCI - Como a senhora percebe a evolução da participação feminina na magistratura desde a época de sua tia?
Evoluímos muito. Na época em que fiz o concurso, havia poucas mulheres aprovadas. A resistência era grande em ter mulheres magistradas. Cheguei a ouvir que deveria ficar em casa cuidando de um marido ao invés de me aventurar em ser juíza, que era profissão para homens.
NCI - Hoje, como a senhora sente o legado de sua tia no seu próprio trabalho ?
Sinto que ela muito me ensinou. Aprendi a me impor como mulher, mãe e profissional, e saber que minhas decisões valem tanto quanto a de um juiz do sexo masculino.
NCI - Que mensagem a senhora deixaria em nome da memória de Thereza Tang para as novas gerações de mulheres no Direito?
Sejam corajosas como ela foi, firmes, mas sem perder a feminilidade. Imponham sua autoridade com ternura, mas jamais se sintam fracas diante de qualquer obstáculo. Empoderem-se com moderação e bom senso.