Tribunal debate ética, saúde mental e exclusões silenciosas no ambiente de trabalho - Imprensa - Poder Judiciário de Santa Catarina
Palestras abordaram cultura organizacional, respeito e prevenção de violências
O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) realizou nesta sexta-feira, 8 de maio, no Auditório Ministro Teori Zavascki, o evento “Ética em Dia: integridade e cultura organizacional no serviço público”. A iniciativa foi organizada pela Comissão de Ética e Conduta, criada na instituição em 2024, em parceria com a Academia Judicial.
Integraram a mesa de abertura o desembargador Marcio Rocha Cardoso, 3º vice-presidente do TJSC; o diretor de Capacitação de Serviços Judiciários da Academia Judicial, juiz Romano José Enzweiler; o diretor-geral administrativo do TJSC, Alexsandro Postali; a servidora Caroline Rodrigues Costa, presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário de Santa Catarina (Sinjusc); e a presidente da Comissão de Ética e Conduta (CEC), Haydée Fernanda Loppnow.
Subir a régua
A servidora Alessandra Ludovico conduziu a segunda mesa do evento, dedicada às palestras e debates sobre o tema. Participaram dessa etapa a desembargadora Hildemar Meneguzzi de Carvalho, o professor Vanderlei de Oliveira Farias e a presidente da Comissão de Ética e Conduta.
Em sua palestra, a presidente Haydée defendeu que o Código de Ética e Conduta do Judiciário catarinense deve servir como instrumento para elevar a qualidade das relações e decisões no ambiente institucional.
Para ela, a ética representa um passo além da obrigação legal e estimula todos a “subirem a régua” da atuação profissional. “Quando eu quero sair do mínimo aceitável e ir para o excelente, aí nós estamos entrando no campo da ética”, disse. De acordo com a presidente, ao abrir esse espaço para os servidores debaterem e pensarem sobre ética, o Tribunal mostra o quanto avança.
Tempos difíceis
Na sequência, o professor Vanderlei de Oliveira Farias ministrou a palestra “O que é Ética?”. Graduado em Filosofia e Psicologia, com doutorado na Alemanha, ele foi instrutor dos cursos da Comissão de Ética Pública da Presidência da República e participou do desenvolvimento do Código de Ética do Banco do Brasil. Hoje, atua na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), e é autor do livro “Entre Outros: metáforas para tempos difíceis”.
O palestrante defendeu a ideia de que ética não é apenas um conjunto de normas ou decisões tomadas racionalmente, mas uma construção cotidiana baseada no reconhecimento do outro, no respeito e na responsabilidade coletiva. Segundo ele, “falar de ética é falar de relações humanas”.
Ao longo da palestra, o professor Vanderlei argumentou que ambientes institucionais saudáveis dependem de conexões emocionais significativas, capazes de fortalecer confiança, cooperação e senso de pertencimento.
Segundo ele, relações fragilizadas favorecem isolamento, indiferença e até situações de assédio. O professor chamou atenção para gestos cotidianos capazes de reforçar a exclusão dentro do ambiente profissional, como ignorar colegas, deixar de cumprimentar ou agir como se determinadas pessoas não existissem. “A melhor forma de excluir alguém é não reconhecê-la”, observou.
Por fim, o palestrante defendeu que a construção de ambientes éticos passa pela escuta, pelo acolhimento e pela disposição de compreender as dificuldades emocionais das pessoas. Ao abordar situações de sofrimento e isolamento no trabalho, Vanderlei afirmou que pequenas atitudes transformam relações profissionais e reduzem conflitos. “A ética produz saúde mental”, destacou.
Exclusões silenciosas
Após as duas palestras, a desembargadora Hildemar Meneguzzi de Carvalho levantou questões sobre relações humanas, respeito e cultura institucional no ambiente de trabalho. Ela relacionou ética, saúde emocional e convivência coletiva ao defender relações de trabalho mais humanizadas nas instituições públicas. Ao comentar a palestra do professor Vanderlei, afirmou que muitas formas de sofrimento surgem justamente da indiferença e da incapacidade de reconhecer o outro no cotidiano profissional.
Segundo ela, o ambiente institucional se fortalece com empatia, escuta e responsabilidade coletiva. “Eu só existo quando o outro me reconhece. E isso faz bem para mim e faz bem para a outra pessoa”, afirmou. A magistrada ainda alertou para o risco da naturalização de violências e exclusões silenciosas dentro dos espaços de convivência. “Não podemos naturalizar a exclusão nem a indiferença dentro dos ambientes de convivência”, destacou.
A magistrada integra a Comissão de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Moral, ao Assédio Sexual e a Todas as Formas de Discriminação (CPEAMAS) e está à frente da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid), ambas do TJSC.
Prevenção
A Comissão de Ética e Conduta é vinculada à Presidência do TJSC e atua no recebimento, instauração, e análise de procedimentos relacionados à aplicação do Código de Ética e Conduta do Judiciário catarinense (Resolução TJ n. 22/2021). O órgão atua de forma preventiva e orientadora, sem atribuição disciplinar ou punitiva.
As atividades seguiram no período da tarde com palestras da assistente social do PJSC Ellen Caroline Pereira, sobre “Ética e Marcadores Sociais”; do juiz de direito Túlio Augusto Geraldo Parreiras, integrante do Comitê de Equidade de Gênero, Raça e Diversidades (CEGRAD), com o tema “Como Construir uma Cultura Organizacional mais Ética”; da professora da Universidade Federal de Santa Catarina Cristina Scheibe Wolff, que abordou “Atuação Ética no Ambiente Virtual”; e do servidor Marcos Leon Bianchi, responsável pela palestra “Ética no dia a dia: atendimento ao público interno e externo e urbanidade, integridade, compliance, cidadania”.