O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou recentemente, como parte das ações para a construção da Política de Cuidados no Poder Judiciário, a websérie “Precisamos falar de cuidados”. A iniciativa contou com a participação de órgãos do Judiciário de 17 estados brasileiros, que no final de 2025 coletaram depoimentos de magistrados, servidores e usuários do sistema de Justiça sobre os impactos das responsabilidades de cuidado na vida deles e nas relações institucionais.
A campanha tem o objetivo de mostrar que, por trás da vida profissional e cidadã, há mães que sacrificam tempo e carreira para cuidar de filhos com ou sem deficiência, há filhos que precisam exercer uma extenuante rotina de cuidados com seus pais idosos, há avós que assumem a criação dos netos e há líderes que lutam por um mundo melhor para seus representados. E esse cuidado com o outro não pode ser resumido a obrigação e afeto. Em 2025, a Corte Interamericana de Direitos Humanos reconheceu o cuidado como direito humano e definiu que esse cuidado possui três dimensões essenciais: ser cuidado, cuidar e autocuidar-se.
“Quando a gente fala de trabalho, muita gente pensa apenas naquilo que dá salário. Mas existe um outro tipo de trabalho que quase nunca é reconhecido: cuidar dos nossos filhos, cuidar dos idosos, cuidar da rotina da casa. E quem faz isso, na maioria das vezes, são as mulheres. Essa invisibilidade não é só injusta, ela limita oportunidades, ela interrompe carreiras, ela sobrecarrega os nossos corpos, as nossas mentes”, observou Denise Cristina Mantovani, servidora da Justiça Federal de São Paulo, em um dos vídeos.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 76,2% do trabalho de cuidado não remunerado do mundo é realizado por mulheres. No Brasil, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2022, realizada pelo IBGE, revelou que as mulheres dedicam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados com pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas, ou seja, mulheres gastam quase o dobro do tempo, em relação aos homens, no trabalho de cuidado não remunerado. “A gente precisa fazer a casa funcionar para que possamos também trabalhar fora de casa”, descreveu Lucci Del Santos Laporta, representante da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) do Distrito Federal.
No âmbito do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), as magistradas e servidoras mães contam com o programa Mães do Judiciário, que oferece acolhimento, escuta empática, integração e valorização às mulheres que conciliam a maternidade e a carreira profissional. O programa também busca identificar demandas que possam orientar projetos futuros da instituição.
A coordenadora do programa, Ana Carolina Serpa Schaefer Martins, destacou a relevância de ações como essa do CNJ para promover a transformação da cultura institucional. "A websérie ‘Precisamos falar de cuidados’ reforça uma reflexão muito importante: quem cuida também precisa ser cuidada. O programa, que teve início em 2020, convida justamente a olhar para nós mesmas com mais gentileza, reconhecendo nossos limites e compreendendo que cuidar da própria saúde física e emocional não é um privilégio, mas uma necessidade. Além disso, incentiva as mães a lidarem com a autocobrança de forma mais compassiva, favorecendo a construção de uma jornada materna mais saudável, equilibrada e humana", ressalta.
Assista à websérie “Precisamos falar de cuidados”.