Como investir com a alta dos juros? - Servidor - Poder Judiciário de Santa Catarina
Dicas financeiras
Nos últimos meses, diversas são as manchetes estampando o aumento da taxa básica de juros no Brasil - a Taxa SELIC - e as consequências disso para o dia a dia da população. Mas por que há a necessidade desta alta nos juros? Quais são as melhores opções de investimentos neste cenário? Quais são os principais cuidados que você, trabalhador preocupado com o seu patrimônio, deve ter? Estas são algumas perguntas que responderemos nesta dica financeira. Confira!
Antes de aprofundarmos o assunto, vale um alerta: não é adequado pensar em investir se a sua situação financeira atual apresenta mais despesas do que receitas. Aqui, o enfoque será, primeiramente, em quitar as suas dívidas, reduzir as parcelas e limpar do seu orçamento as despesas que estão lhe impedindo de investir. Sobre este ponto, leia as nossas dicas financeiras intituladas: “Estratégias para lidar com dívidas”, “Como se preparar para as despesas de início do ano” e “Como quitar o empréstimo consignado?”
Caso não saiba exatamente qual a sua situação financeira atual, na homepage do portal do Programa de Educação Financeira disponibilizamos gratuitamente uma planilha de controle de gastos que certamente irá lhe auxiliar!
- Por que a taxa de juros sobe na economia?
A taxa de juros pode subir por diversas razões: Eis as principais: a) controle da inflação, b) redução do consumo; c) aumento da poupança; d) fortalecimento da moeda; e) redução do déficit público; f) mudanças na política monetária; g) risco de crédito; entre outros.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária - COPOM, órgão vinculado ao Banco Central, é o responsável pela fixação da taxa de juros. Os problemas econômicos gravíssimos vivenciados no país sobretudo nas décadas de 80 e 90 escancaram a dificuldade do controle da inflação.
Mais recentemente, a pandemia da Covid-19 forçou os governos a elevar os gastos públicos, contribuindo com o aumento da inflação em escala global.
No Brasil, a taxa de juros pode aumentar quando as pesquisas de índices de preços demonstram uma economia com consumo acima do normal (superaquecida) ou aumento no déficit público (aumento nos gastos públicos, da dívida pública).

No mês de fevereiro do ano de 2025, no Brasil, a taxa SELIC está no patamar de 13,25% e há perspectiva de aumento para 14,25%.
- O que acontece com os investimentos quando a taxa de juros sobe?
Com o aumento da taxa básica de juros, os investidores conseguem acessar os títulos públicos com maior rentabilidade, e não há investimento mais seguro do que a compra de um título emitido por um país desenvolvido ou em desenvolvimento, seja por conta da alta arrecadação oriunda do pagamento de impostos pela população, seja porque, caso necessário, uma das opções é a emissão de mais moeda pelo respectivo Banco Central.
O gráfico abaixo mostra o crescimento de aplicações em fundos de investimento em renda fixa, em contraposição ao alto resgate nos fundos de ações e multimercados:

Portanto, quando a taxa de juros sobe, há um movimento natural da maioria dos agentes do mercado (investidores institucionais, grandes gestoras e pessoas físicas) de ir em busca de investimentos menos arriscados (renda fixa) e vender ou sair daqueles mais arriscados (opções disponíveis nas bolsas de valores).
- Como a alta dos juros afeta os meus investimentos?
Em períodos de crescimento da taxa básica de juros, o investidor que possui uma carteira composta apenas por títulos pós-fixados atrelados à SELIC será o menos atingido, justamente porque tal modalidade segue o movimento deste índice. Ou seja, se a SELIC aumenta, a rentabilidade sobre os seus investimentos também aumentará.
No entanto, o investidor com carteira diversificada em diferentes títulos e exposto a diversas classes de ativos (como ações, fundos multimercados, fundos imobiliários, títulos prefixados ou indexados à inflação, criptomoedas), observará uma rentabilidade negativa em uma ou várias aplicações, necessitando entender o movimento do ciclo econômico para agir com paciência e, principalmente, aproveitar possíveis oportunidades.
Desse modo, procure avaliar porque a rentabilidade da sua carteira está negativa e, acima de tudo, não saia vendendo ativos apenas porque, em dado período, há queda na performance de determinado produto financeiro.
Investidores de títulos atrelados à inflação brasileiros por exemplo, enxergaram retornos negativos nos últimos meses, assim como detentores de ações ou de fundos imobiliários brasileiros. No entanto, não seria justamente em momentos como este que teríamos a oportunidade de pagar mais barato por estes ativos?
Esta é uma das principais lições de um dos maiores estudiosos do século XX, Benjamin Graham, e cujos ensinamentos foram seguidos pelo seu mais famoso aluno, Warren Buffett: Nesse sentido, William Green (2021, p. 30) sintetiza que:
[...] só se deve comprar uma ação quando ela é oferecida por um valor muito menor que uma estimativa conservadora do seu valor. A diferença entre o valor intrínseco de uma empresa e o preço de sua ação propicia aquilo que Graham chamava de “margem de segurança”.
Assim, cada ativo possui um preço e quanto mais barata for a aquisição, maior o potencial de retorno (ou margem de segurança).
- Em cenário de alta de juros, quais as melhores opções de investimentos com baixo risco (mais conservadores)?
Não há dúvidas de que uma das melhores opções em cenário de alta de juros é o investimento em títulos, públicos ou privados, pós-fixados, ou seja, o cidadão deve estudar (preferencialmente com o seu assessor ou gerente de confiança) e avaliar a possibilidade de aportar no Tesouro SELIC ou em CDBs (Certificados de Depósito Bancário) vinculados ao CDI e emitidos por sólidas instituições bancárias. Tais títulos devem ser pós-fixados e de liquidez diária (disponibilidade imediata).
O título ser atrelado ao CDI e ser pós-fixado significa que a taxa que lhe remunera acompanha a variação da SELIC ao longo do tempo do investimento. Ou seja, se a taxa estiver em 13,25% e há perspectiva de aumento, o investimento no Tesouro SELIC também aumentará a rentabilidade caso a SELIC aumente.
- Quais as melhores opções ao investidor com perfil de risco moderado?
Em primeiro lugar, precisamos definir o que seria um investidor com perfil de risco moderado. Na dica intitulada “Como identificar meu perfil investidor?, descrevemos que o investidor com perfil moderado é aquele que:
[...] preza pela segurança do seu capital, porém busca retornos acima da média, aceitando assumir pequenos riscos. Um exemplo de investimento adequado a este perfil são os fundos multimercados, mais estáveis do que os fundos de ações.
Importante registrar que o investidor com perfil moderado, naturalmente mais conhecedor dos produtos disponíveis e da dinâmica do mercado financeiro, está ciente de que maiores retornos exigirão mais riscos, e que a rentabilidade passada não é garantia de retorno futuro.
Neste caso, ainda no âmbito dos investimentos em renda fixa, produtos que podem trazer bons retornos em cenário de alta de juros são os títulos prefixados e os indexados à inflação.
A alta da taxa de juros torna menos atraente um título adquirido num cenário de juros menores.
Pense num investidor que comprou um Tesouro prefixado a 13% ou um Tesouro IPCA+ com 6% de juros nominais. Com a elevação dos juros, será possível encontrar, na própria plataforma do Tesouro Direto, os mesmos títulos prefixados a 14% e um Tesouro IPCA+ com 7% de juros nominais. Tal circunstância acarretará desvalorização daquelas primeiras opções.
No entanto, em caso de queda da taxa básica dos juros ou caso o investidor carregue os títulos até o seu vencimento, ele terá recebido as taxas contratadas no ato da compra, percebendo um bom retorno.
- Quais as opções de investimentos com mais retorno (e com alto risco)?
Diante do movimento de venda generalizada dos ativos de renda variável, é natural que as opções com maior retorno - e consequentemente com maior risco - estão nos ativos das bolsas de valores: ações, ETFs (conjunto de determinados ativos), fundos imobiliários e respectivos derivativos.
No ponto, vale reforçar a advertência segundo a qual só invista em renda variável depois de ter formada a sua reserva de emergência e de entender que esta classe de ativos deve ser acessada com foco no longo prazo (já escrevemos sobre reserva de emergência noutra oportunidade).
A fuga dos investidores das bolsas de valores também contribui para a queda no valor de tela das ações e demais ativos. Portanto, não se desespere caso a sua rentabilidade esteja negativa! Perceba que, em momentos históricos anteriores, os países atravessaram épocas de juros elevados, e que boas empresas, líderes em suas áreas de atuação, mesmo em momentos de crise, entregaram bons resultados financeiros com bons lucros e margens elevadas.
O jornalista William Green, ao entrevistar o investidor John Templeton, assim registrou as palavras do entrevistado (2021, p. 63):
Absolutamente nada fará uma ação cair a um preço extremamente baixo, exceto outras pessoas tentando vender com urgência. [...] Você tem que comprar na hora em que os outros estejam tentando vender desesperadamente.
A estratégia dos grandes investidores nestes momentos é adquirir não só boas empresas como bons ativos a excelentes preços e foco no longo prazo.
- Como aproveitar as oportunidades e investir melhor?
Em primeiro lugar, é necessário que o investidor possua reserva de oportunidade, isto é, que ele detenha recursos próprios, alocados em renda fixa com alta liquidez (disponibilidade imediata do capital), a fim de comprar aquilo que está muito barato ou que possui alta margem de segurança.
Na renda fixa, por exemplo, em cenário de juros elevados, a rentabilidade dos títulos indexados à inflação fica igualmente alta, proporcionando que o investidor seja por ela remunerado. No Brasil, historicamente, a média do Tesouro IPCA+ é de juros reais próximos a 5%. Contudo, no final de 2024 e início de 2025, observou-se uma remuneração de IPCA + 7,6%.
Na renda variável, ações de grandes empresas estão cotadas nos menores múltiplos dos últimos anos, justamente por conta daquele movimento generalizado de saída dos investidores das bolsas de valores e de migração para os ativos de renda fixa.
Importante dizer que estes movimentos exigem atenção do investidor, sendo primordial que realize tais alocações avalizado pelo seu assessor de investimentos ou funcionário de confiança de sua instituição bancária.
Outro ponto fundamental é perceber que não é porque um ativo está aparentemente barato que ele não pode ficar ainda mais barato. Disso dimana uma conclusão importante: estas alocações exigem que o investidor foque no longo prazo, ou seja, num período maior do que 5 anos. Daí a importância de que estes investimentos sejam separados daqueles outros que compõem a reserva de emergência e dos objetivos de curto e médio prazos.
Ao remate, para investir melhor, o investidor precisa estruturar uma carteira que, em primeiro lugar, esteja alinhada ao seu perfil de risco e, num segundo momento, possua diversificação em diversas classes de ativos, ou seja, alocações em renda fixa atrelada à SELIC, à inflação (para garantir a proteção do seu poder de compra), bem como em ativos da economia real que podem lhe gerar bons retornos, como ações, fundos imobiliários, e em diferentes moedas e países, estando ciente de que os produtos negociados em bolsas de valores possuem maior oscilação em seus preços.
E aí? Como está a sua carteira de investimentos neste período de alta da taxa de juros? Quer saber mais sobre este ou outro assunto? Não se esqueça: converse com um profissional credenciado para tratar de produtos financeiros, e, se preferir, agende conosco um encontro sobre qualquer tema relacionado à educação financeira!
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Elaboração:
Leandro Ambros Gallon
Equipe do Programa de Educação Financeira
E-mail: educacaofinanceira@tjsc.jus.br
Referências:
GREEN, William. Ricos, sábios e felizes. Tradução André Fontenelle. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2021.
SILVA, João Pedro Mello. O que os resgates dos fundos de ações podem te dizer? Dica de Hoje Research. Rio de Janeiro. 2022. Disponível em: <https://dicadehoje7.com/fundos-de-investimentos/o-que-os-resgates-dos-fundos-de-acoes-podem-te-dizer/> Acesso em: 11 mar. 2025.