Programa Nossos Ciclos - Servidor - Poder Judiciário de Santa Catarina

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Programa Nossos Ciclos

Lidar com perdas é um processo que faz parte das nossas vidas, em diferentes momentos e em diversos contextos. Quando a perda se refere ao falecimento de alguém, naturalmente o vocabulário nos remete à palavra “luto”. No entanto, ao longo da sua biografia, o ser humano vivencia também outras perdas. Algumas se processam de maneira mais orgânica, porém às vezes as perdas chegam inesperadamente. Entre essas vivências podemos citar sair de uma fase para outra da vida, um animal de estimação que morre, a troca de escola ou de emprego, um amigo que vai morar em outra cidade, um relacionamento que se desfaz, uma gestação que deixa de acontecer, uma doença ou acidente que deixa sequelas irreversíveis, um abalo financeiro. Enfim, muitos poderiam ser os exemplos para tipificar perdas que trazem consigo também o processo de luto. Inclusive, numa compreensão mais abrangente, é possível identificar o luto até mesmo em situações que representam um ganho ou uma conquista, como a chegada de um filho, quando se olha para as modificações nas rotinas, nos hábitos, nas prioridades do antes e depois de se tornar mãe ou pai, ou o começo de um novo emprego, quando se percebe que também é uma despedida de colegas, atividades e/ou lugares com os quais se tinha afinidade. 

Assim, no trabalho também é comum ocorrerem situações em que nos deparamos com essa temática. São inúmeras as perdas que podem acontecer no nosso cotidiano laboral, e com certeza todos nós já as experimentamos em algum formato e, às vezes, até de forma combinada: desligamento de uma função ou cargo, saída de um colega do setor, seja por troca de lotação, aposentadoria ou falecimento, reestruturação do setor, com abertura ou fechamento de unidades, implementação de novas metodologias ou procedimentos, movimentação funcional, com ou sem mudança geográfica, e interrupção de programas e projetos, para citar algumas ocorrências que costumam mobilizar os sentimentos de perda e luto no trabalho.  

Dedicada ao atendimento de servidores, magistrados e colaboradores, a Seção Psicossocial Organizacional (SPO), da Diretoria de Gestão de Pessoas, há alguns anos observa, estuda e atua nos reflexos das perdas laborais para as pessoas. Até bem pouco tempo, a SPO atendia oferecendo o espaço de acolhimento após a ocorrência da situação. No entanto, percebemos que apenas essa atuação mais reativa, embora também necessária, era insuficiente. O que a experiência foi nos mostrando? Que muitas das vezes era tarde, pois os conflitos e os adoecimentos estavam mais presentes, tornando o processo mais dolorido e sofrido para os envolvidos.  

Fomos compreendendo que, para algumas experiências que seriam inevitáveis e que, de alguma maneira eram previstas, como a troca de um sistema e a adoção de novas metodologias de gestão, seria possível incluir nas medidas de planejamento e capacitação alguma ação prévia que pudesse apoiar o processo numa etapa preliminar, anterior à concretização da perda. Assim, surgiram as rodas de reflexão sobre adaptação a mudanças, que inicialmente foram aplicadas na ocasião da implantação do sistema eproc e que mais recentemente vêm sendo utilizadas na abertura dos cursos do Programa de Gestão de Unidades, da Corregedoria-Geral da Justiça. Essas rodas também ganharam lugar numa ocasião em que a mudança foi inevitável, mas que foi repentina: quando passamos pela pandemia do coronavírus e o trabalho remoto precisou ser a regra, com todas as inseguranças, incertezas e instabilidades daquele momento. Foram então criadas as rodas de apoio virtuais. 

Ainda nessa caminhada de observação, a partir da participação no programa de acolhimento e integração de novos servidores, o Novos Laços, atualmente bastante consolidado, a SPO começou a perceber o contingente de pessoas que mudam de cidade ou de estado para assumir um cargo efetivo no PJSC. Esse movimento, que decorria de cada escolha individual, nos sensibilizava na medida em que os relatos nos davam conta de que essas pessoas tinham histórias semelhantes: distância de familiares e amigos, troca de atividade profissional, adaptação a climas e culturas diferentes. Havia a necessidade de espaço para essa elaboração, e apenas a roda de integração era pequena para se aprofundar nessas questões. Paralelamente a isso, demandas surgiram para o acompanhamento de servidores, que, em breve síntese, estavam com dificuldade de adaptação ao trabalho e que, ao atendê-los, era evidentes que tais dificuldades tinham relação também com a mudança de lugar. 

E sobre aquele luto mais tradicional, pela morte de alguém? Sobre essa sensível questão, estávamos mobilizados há mais tempo, porém a época da pandemia também nos trouxe maior clareza. Fomos tocados por muitas ocorrências, pessoais e profissionais, que abriram o entendimento de que algo mais concreto precisava ser oferecido pela instituição. Passamos então a entrar em contato com os colegas enlutados, quando ocorreram falecimentos de colaboradores, e identificar necessidades de apoio em perdas mais delicadas, como a morte de filhos; a prestar solidariedade e escuta acolhedora a quem nos procurasse ou sobre quem tomássemos conhecimento. E daí fomos percebendo que, sim, havia um vasto campo de emoções que ficavam quase sempre abertas, invisíveis, dispersas, mescladas no meio de tantas outras questões laborais.  

Com essas três principais demandas envolvendo o tema luto formamos as origens para os atendimentos que, reunidos, ganharam o nome de Nossos Ciclos, cada qual com uma singularidade, porém ao mesmo tempo contemplando a complexidade dos seus conteúdos. 

Para quem precisa de espaço para mudanças no trabalho, o atendimento é chamado Metamorfose. Para quem escolheu trabalhar no PJSC, mas para isso precisou mudar de cidade ou de estado, oferecemos o Travessia. E para quem lida com perdas em decorrência do falecimento de pessoas, atendemos com o Saudade. 

Cada um desses espaços segue sendo constituído, desenvolvido e aperfeiçoado, e sabemos que as temáticas têm intersecções com diversas outras. Por isso, começamos, queremos continuar, quando possível ampliar, mas sempre oferecendo apoio a partir da leitura das necessidades que se mostram, dos desafios que se colocam e das sensibilidades que nos tocam. 

Elaboração:
Seção Psicossocial Organizacional
Divisão de Desenvolvimento e Valorização de Pessoas
Diretoria de Gestão de Pessoas